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    Home»Esportes»Congolês leva Lumumba para a Copa e celebra legado do pan-africanista
    Esportes

    Congolês leva Lumumba para a Copa e celebra legado do pan-africanista

    Isabela Vieira - Reporter da Agencia BrasilFonte: Isabela Vieira - Reporter da Agencia Brasil24 de junho de 2026Nenhum comentário
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    Congolês leva Lumumba para a Copa e celebra legado do pan-africanista
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    No meio da euforia nas arquibancadas da Copa do Mundo de 2026, uma das imagens mais icônicas é a de um homem negro parado, com a mão erguida. A performance do torcedor Michel Nkuka Mboladinga encarna Patrice Lumumba, ex-primeiro-ministro da República Democrática do Congo e símbolo da luta anticolonial em África. 

    Imóvel durante a partida, o congolês leva para os estádios da América do Norte a mesma pose da estátua de Lumumba instalada em Kinshasa, a capital do país africano.

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    Nesta semana, na terça-feira (23), Mboladinga instalou sua “estátua viva” no jogo entre a RD do Congo e a Colômbia, em Guadalajara, no México. Antes, ele tentou entrar nos Estados Unidos para ver a estreia de seu país na Copa de 2026, mas foi barrado por conta da epidemia de ebola que afeta o Congo. 

    Sem o visto norte-americano, Mboladinga deve retornar à Kinshasa, onde vive e assistirá ao próximo jogo dos Leopardos, apelido da seleção congolesa. A partida será no sábado (27), contra o Uzbequistão. 

    Mesmo ausente no restante da Copa, o ex-padeiro e torcedor já passou o seu recado, ao rememorar o legado de Lumumba e representar a insurgência dos povos africanos, na avaliação da coordenadora do Grupo de Pesquisa Pensamento Negro Contemporâneo, Maria do Carmo Rebouças, da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB).

    “A trajetória de Lumumba expressa a luta ativa [dos países] pela autodeterminação, pela soberania política, pelo controle dos próprios recursos, e, consequentemente, pelo próprio futuro”, afirmou a pesquisadora. 

    Para ela, a performance Lumumba Vive é “um gesto simples que carrega todo o continente” e, por isso, o artista coleciona fãs.

    Maria do Carmo acredita que, com a performance, Mboladinga conseguiu ainda deslocar o futebol do campo do entretenimento para o da reflexão sobre o legado do passado colonial.

    O ato ainda confronta movimentos que tentam apagar o histórico de lutas anticoloniais, como ocorreu quando a Federação Internacional de Futebol (Fifa) vetou a camisa da seleção do Haiti na Copa, por causa de uma referência que o uniforme fazia à independência do país caribenho.

    “Esse fã sustenta uma imagem silenciosa, mas com grande peso: a de que o Congo não esqueceu, a de que África não esqueceu, e a de que a independência política, sem soberania econômica e no modo de pensar, é inconclusa”, explicou, em entrevista à Agência Brasil.

    O professor de História da África da Universidade Federal Fluminense (UFF) Felipe Paiva acrescenta que Mboladinga também reverencia outras histórias de luta anticolonial no continente africano.

    O pesquisador lembrou que vários líderes nacionalistas seguiram os passos de Lumumba, embora também tenham terminado assassinados, como o ex-primeiro-ministro congolês. É o caso de Thomas Sankara, em Burkina Fasso, e Amílcar Cabral, em Cabo Verde, país que inclusive disputa sua primeira Copa em 2026. 

    “As independências africanas foram conquistadas com muito  sangue, suor e lágrimas”. 

    Guerra esquecida

    Em referência ao cenário atual, no jogo contra Colômbia, Mboladinga se moveu uma única vez, quando colocou um dedo na têmpora e a mão esquerda sobre a boca. O movimento fez alusão ao silêncio da comunidade internacional em relação à situação atual no país africano, de guerras e pilhagem de seus recursos naturais. 

    Esse mesmo gesto tem sido repetido por jogadores espalhados pela diáspora africana, chamando atenção para o Congo. Um deles foi Nico Williams, espanhol de ascendência ganesa.

    “Essa mensagem alerta o mundo sobre o que o Congo está passando”, observa o professor de História da África da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o angolano Nuno Carlos de Fragoso Vidal. “Esta é uma guerra esquecida, com milhares de mortos ao longo de anos, muita ingerência externa, pilhagem e descaso da comunidade internacional”.

    Quem foi Lumumba?

    Lumumba foi o primeiro governante do Congo eleito democraticamente após a independência da Bélgica, em 1960. Por suas ideias, o primeiro-ministro tornou-se símbolo do pan-africanismo, movimento que defende a união dos povos africanos.

    Para Lumumba, a riqueza do país em recursos naturais deveria ser gerenciada em favor dos congoleses. Após sua morte, porém, o Congo mergulhou em décadas de conflitos pelo controle da exploração de seus recursos minerais.  

    Até hoje, o país sofre com guerras internas em torno dessas riquezas, o que agrava crises como a do ebola, e mantém a população na pobreza. Para participar da Copa, a delegação congolesa precisou ficar em quarentena por causa do surto da doença.

    Ao se posicionar em favor dos interesses de seu país, Lumumba desagradava. Por isso, em meio às tensões da Guerra Fria, mesmo o político defendendo a neutralidade, ele foi assassinado, com a cumplicidade de autoridades da Bélgica e dos Estados Unidos, sob acusação de manter relações com a União Soviética. O corpo foi dissolvido em ácido, na tentativa de que não fosse reconhecido nem se tornasse um mártir. 

    Após pressão, em 2022, a Bélgica reconheceu a “responsabilidade moral” no crime e devolveu à família de Lumumba um dente com coroa de ouro, guardado por um policial como relíquia.

    Na época, o  então primeiro-ministro belga, Alexander de Croo, disse à imprensa: “Esta é uma verdade dolorosa e desagradável, mas que precisa ser dita: um homem foi assassinado por suas convicções políticas, suas palavras, seus ideais”.

    Responsabilidade de Bélgica, Brasil e EUA

    A Bélgica tem uma longa história de dominação no Congo, que data dos anos 1880, quando o Rei Leopoldo II governou o país como um feudo pessoal, assassinando e mutilando deliberadamente quem se opusesse ao enriquecimento da família real.

    Pelos anos de dominação e pelos crimes, o professor da UFRJ defende que o país europeu, como reparação, deveria trabalhar pelo fim das guerras na ex-colônia.

    “Para se responsabilizar, [a Bélgica,] por exemplo, poderia demonstrar mais interesse na situação e liderar uma agenda internacional que busque uma solução de paz e desenvolvimento”, avaliou Vidal, que reforçou que a economia do Congo permanece baseada no extrativismo, parte do ciclo de subdesenvolvimento e exploração.

    Por terem recebido um grande número de pessoas negras, Brasil e Estados Unidos também deveriam se juntar contra o legado da colonização em África, argumenta o professor.

    “Países formados pela diáspora, onde essas comunidades têm peso, têm a obrigação moral de pautar essa agenda, de tentativa e solução para os problemas do continente”, avaliou. “ E o Congo é um dos casos mais dramáticos hoje”.

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    Isabela Vieira - Reporter da Agencia Brasil

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